quarta-feira, 10 de março de 2010

Mobilidade e Crescimento na Área Metropolitana do Porto

No levantamento de informação que fiz para preparar a apresentação na Conferência "Mobilidade e Planeamento Urbano no Século XXI", analisei a relação entre o crescimento demográfico e a centralidade de cada um dos 9 municípios que integram o Grande Porto, medindo esta última pelo quociente entre as viagens pendulares (casa-trabalho ou casa-escola) com destino ao concelho sobre as viagens pendulares com origem nesse mesmo concelho, reportadas a 2001.

Um primeiro aspecto a salientar desta análise é que neste território apenas o Porto tem um índice de atracção superior a 1 (1,9), ou seja, atrai mais viagens do que aquelas que gera, apresentando todos os restantes valores inferiores à unidade (mínimo de 0,57 em Gondomar).

Quanto ao crescimento demográfico, verificou-se um aumento da população residente em todos os municípios no período 1991-2008, com excepção do Porto e de Espinho.

Colocando num mesmo gráfico a taxa de crescimento demográfico média anual 1991-2008 e o índice de atracção de viagens em 2001 (cf. imagem abaixo), torna-se clara uma conclusão relevante: os concelhos que apresentavam maior centralidade (Porto e Espinho), foram precisamente aqueles onde a população decresceu, destacando-se o caso do Porto com uma taxa de crescimento média anual de -2,8%.

Significa portanto que nestas duas últimas décadas se tem verificado uma forte pressão de aumento da mobilidade pendular, decorrente de o crescimento da população se ter verificado em concelhos diferentes do local de trabalho ou estudo, concomitantemente com a redução demográfica do concelho do Porto, o único que, do ponto de vista da mobilidade, tem um carácter central (índice de geração de viagens próximo de 2).

Os resultados desta evolução do padrão de povoamento são, necessariamente, um aumento da mobilidade quotidiana, ou seja, a população activa percorre diariamente distâncias médias cada vez maiores para se deslocar desde a sua residência em direcção ao local de trabalho ou de estudo.

Naturalmente que, do ponto de vista da sustentabilidade do sistema de transporte e da qualidade de vida, esta tendência é negativa, na medida em que obriga a um consumo superior de combustíveis (maiores distâncias), degrada a capacidade competitiva do transporte público (maior afastamento do centro - menor densidade - menor frequência da oferta) e aumenta o tempo que os cidadãos são forçados a dedicar para efectuar as suas deslocações.

Julgo por isso que este tema deverá merecer alguma reflexão, sobretudo para encontrar instrumentos que permitam reduzir esta tendência de "periferização" na área envolvente ao Porto.




Poderá ser descarregado o ficheiro powerpoint com a apresentação em http://www.uportu.pt/site-scripts/ver_destaque.asp?ID=626)

5 comentários:

G disse...

Eu não diria que o Grande Porto são 9 concelhos. Espinho, Póvoa e Vila do Conde têm densidades abaixo dos mil habitantes por quilómetro quadrado, ao contrário dos concelhos do miolo central.

Quanto ao resto, ótimo, como sempre. Até mais

Joao Marrana disse...

Agradeço o comentário.
De facto o Grande Porto ou a Área Metropolitana são uma realidade relativamente heterogénea.
Em todo o caso optei por utilizar a definição territorial do sistema estatístico nacional (NUT III) por razões de simplificação e comparabilidade.

G disse...

Uma sugestão de leitura:

"O projeto de uma rede de altas prestações em Portugal nasceu coxo, como muitos outros em Portugal. Qualquer resolução de um problema tem de passar por uma fase de diagnóstico que permita, de facto, objetivar esse problema e perscrutar as saidas, as fórmulas de resolução desse problema."


http://www.nunogomeslopes.com/2010/03/17/paradoxo-a-alta-velocidade-2/

G disse...

E já agora, caro João, assisti à conferência sobre mobilidade e planeamento de há uma ou duas semanas atrás. Não recebi o seu powerpoint, nem um certificado de presença. Estarei a pedir de mais?

Um abraço

Joao Marrana disse...

Quanto à questão dos ficheiros com as apresentações da conferência do dia 3 de Março, houve um atraso no envio dos email para todos os inscritos, indicando que as mesmas estão disponíveis no site da U. Portucalense.

Em todo o caso poderá fazer o download das apresentações em http://www.uportu.pt/site-scripts/ver_destaque.asp?ID=626.

Quanto aos certificados de presença não estava previsto, mas se for importante posso ver se é possível emitir.